Pouquíssimas pessoas possuem bitcoins. Mesmo que você diga que possui bitcoins, provavelmente seus bitcoins estão dentro da corretora. Isso não é ter bitcoins, pois a qualquer momento a corretora pode ter um problema e não te entregar esses bitcoins. Ter bitcoins na corretora é igual ter uma promessa de papel de que ela vai te entregar esses bitcoins caso você peça o saque.
Existe um ditado na comunidade de Bitcoin que diz assim: “not your keys, not your coins”. Essa frase foi dita por Andreas Antonopoulos quando ele reforçava uma das características mais importantes do Bitcoin: a responsabilidade de você ser o seu próprio banco ou de assumir as consequências se não desejar ser.
Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Por não existir nenhuma autoridade central dizendo o que você pode ou não pode fazer com o seu dinheiro, o Bitcoin te dá o poder de usar o seu dinheiro da forma como você quiser. Você pode transferir seu dinheiro para quem quiser, a qualquer horário, sem pedir autorização para ninguém. É impossível confiscar seu dinheiro guardado em bitcoin.
Mas com esse poder, também vem a responsabilidade de você guardar os seus bitcoins com segurança. Para isso, você precisa ter uma carteira e precisa ter uma chave privada, uma senha, que dá a você acesso a esses bitcoins.
Se você não tem essa chave privada, então você não é realmente o dono dos seus bitcoins. Esse é o sentido do ditado “not your keys, not your coins”. Se você tem bitcoins apenas na sua conta da corretora, é a mesma coisa que não ter bitcoins.
Importante: este não é um serviço financeiro. Leia o aviso completo antes de continuar.
1. Manter os seus bitcoins na conta da corretora é um risco que anula as vantagens de ter bitcoin.
Hoje em dia tem sido muito comum criar uma conta em uma corretora e lá comprar alguns bitcoins. Comprar bitcoins em corretora é tão fácil que acaba criando situações problemáticas, pois as pessoas não aprendem a fazer a custódia das próprias chaves.
Quando você compra bitcoins na corretora, você está trocando o seu dinheiro em moeda nacional (reais se você está no Brasil ou euros se você está em Portugal) por um ativo digital, o bitcoin, que precisa ser armazenado em algum lugar.
O que a maioria das pessoas iniciantes faz é deixar os bitcoins comprados lá na conta da corretora mesmo. Mas isso é um risco.
A rede do bitcoin nunca foi hackeada. Mesmo com mais de dez anos de funcionamento, valendo bilhões de dólares e sendo um alvo desejado pelos hackers mais sofisticados do mundo, a rede do bitcoin continua protegida pelo maior poder computacional do planeta.
Mas não dá para dizer o mesmo sobre as contas das corretoras. Um hacker pode muito bem invadir a conta de uma corretora e roubar os bitcoins que foram deixados lá.
Isso já aconteceu dezenas de vezes. O caso mais famoso foi em 2014, quando a Mt. Gox, que era a corretora de bitcoins mais famosa da época, foi hackeada e teve oitocentos e cinquenta mil bitcoins roubados. Na época, isso valia mais ou menos seiscentos milhões de dólares. Hoje vale dezenas de BILHÕES de dólares.
Todo mundo que tinha deixado bitcoins na conta da corretora perdeu para sempre esses bitcoins. A corretora foi à falência. E o único jeito de os clientes recuperarem parte do dinheiro é entrando na Justiça contra a empresa e tentando obter alguma indenização em moeda nacional.
Esse é um excelente exemplo do porquê você não deve deixar seus bitcoins em uma corretora. Mas não é o único exemplo: mais de cinquenta hacks desse tipo já são conhecidos.
Se ainda não ficou claro, pense em quando você vai em uma casa de câmbio trocar o seu dinheiro por dólares, por exemplo. Você confiaria em deixar os dólares lá na casa de câmbio com uma promessa de que você pode sacar depois… ou prefere imediatamente colocar na sua carteira?
É isso o que você deveria fazer com os seus bitcoins depois de comprar os bitcoins: colocar na sua própria carteira. É isso o que chamamos de fazer a custódia das suas chaves.
2. Você só tem controle total sobre os seus bitcoins se possuir uma wallet com suas chaves privadas.
Para tirar os bitcoins da conta da corretora e guardar tudo sob sua responsabilidade, você precisa ter duas chaves: uma chave pública e uma chave privada. Você pode pensar na chave pública como se fosse o número da sua conta bancária e na chave privada como se fosse a senha da sua conta.
O número da sua conta bancária pode ser público. Você passa esse número para outra pessoa, por exemplo, quando quer receber o depósito de algum dinheiro.
Mas a sua senha é privada, é somente sua. Quem tem essa senha tem o poder de controlar o dinheiro que está na conta.
Com o bitcoin, é praticamente a mesma coisa. Com a diferença de que não existe um banco, uma autoridade central ou ninguém para reclamar se você perder a sua chave privada. Não tem um telefone de uma central de ajuda para você ligar e reclamar, por exemplo.
Isso pode parecer uma desvantagem, mas é uma característica essencial do Bitcoin. A ausência de uma autoridade central é o que dá a você soberania sobre o seu dinheiro. É um grande poder, mas também uma grande responsabilidade.
Quando você deixa seus bitcoins em uma corretora, você tem acesso aos bitcoins, mas do ponto de vista da rede do bitcoin eles não são realmente seus. Claro que pode haver leis que responsabilizem judicialmente a corretora e você pode exigir seus direitos como cliente, mas falando só da rede do bitcoin, não há muito o que fazer.
Além disso, quando você confia o seu dinheiro a terceiros, você volta para o mesmo problema que tem com moedas nacionais e autoridades centrais. A corretora pode definir regras limitando como você usa aqueles bitcoins. Ela pode dizer por exemplo que você só pode transferir certa quantidade a cada dia, ou outro tipo de limitação “por questões de segurança”.
Por isso confiar os seus bitcoins na conta de terceiros vai contra o ideal de soberania sobre o dinheiro que está na base do bitcoin.
Sabendo disso, aparece uma dúvida que preocupa muitos iniciantes no mundo das criptomoedas: onde guardar as chaves dos bitcoins com segurança?
3. Existem wallets para todos os perfis. Escolha as que mais se adaptam à sua necessidade.
Ok, você se convenceu de que não deve deixar os seus bitcoins na corretora ou em qualquer conta de terceiros. E agora? Para onde você manda os seus bitcoins?
Você precisa mandar esses bitcoins para uma carteira sua, para uma wallet que dá a você acesso sobre os bitcoins armazenados na Timechain, o banco de dados do Bitcoin que fica distribuído entre todos os integrantes da rede.
Uma wallet é um programa de computador que tem uma interface amigável, é um software onde você armazena as chaves dos seus bitcoins e que permite o envio de bitcoins diretamente para outras pessoas sem a necessidade de intermediários.
Existem duas espécies de wallets: as que ficam conectadas à internet e as que ficam offline. As que ficam conectadas à internet são conhecidas como hot wallets e são mais práticas. As que ficam offline são conhecidas como cold wallets e são menos práticas, porém mais seguras.
Criar uma hot wallet é bem fácil. Basta você baixar um aplicativo no seu celular, criar uma conta e pronto. Cada wallet tem uma interface diferente, e é importante você olhar tutoriais que explicam como fazer anotação da seed phrase que é uma senha de doze ou vinte e quatro palavras que você anota num local seguro para ter a tranquilidade de que os bitcoins são realmente seus. Por exemplo, caso seu celular seja perdido ou roubado, basta usar essas palavras da seed phrase para recuperar sua carteira em outro dispositivo.
Além disso, você precisa cuidar da segurança do seu equipamento, deixando eles livres de vírus e de danos físicos. Além disso, como as hot wallets estão conectadas à internet, elas correm o risco ataques hacker.
Se quiser ficar livre de riscos de ataques online, melhor você escolher uma cold wallet. A grande diferença da cold wallet é que ela não fica conectada à internet. A cold wallet pode existir de três formas: como um programa instalado no seu computador, como uma espécie de pen drive ou como um pedaço de papel.
A cold wallet que parece um pen drive é chamada de hardware wallet. É um pequeno dispositivo para onde você transfere as chaves dos seus bitcoins, que ficam assim fora não só da internet como também fora do seu computador. A sua preocupação com segurança vai ser guardar bem esse hardware, de preferência em um cofre ou outro lugar seguro.
A cold wallet também pode ficar em um pedaço de papel. Essa é chamada de paper wallet e é apenas a impressão em papel das chaves pública e privada, gerada por um programa específico. Aqui você também vai precisar guardar o papel em um lugar bem seguro.
Se você está achando tudo isso muito complicado, saiba que você não é a única pessoa a ter essa reclamação…
4. Pessoas comuns querem só usar o bitcoin de forma simples, sem a responsabilidade de serem seus próprios bancos.
A ideia do ditado “not your keys, not your coins” faz muito sentido para os entusiastas do bitcoin, para quem entende a ideologia por trás do bitcoin, para programadores, criptógrafos e outras pessoas mais ligadas à tecnologia. Quem gosta de tecnologia acha tudo isso fascinante. Quem não gosta de tecnologia acha isso tudo complicado e assustador.
A ideia de ser o seu próprio banco não agrada a todo mundo. A pessoa comum não quer ter a responsabilidade de guardar dinheiro por conta própria. Ela prefere até pagar uma taxa ao banco para deixar seu patrimônio lá, com todos os recursos de segurança que a pessoa nunca vai ter em casa.
Manter bitcoins em cold wallets pode até ser mais seguro, mas não é tão prático. Sempre que você quiser usar os seus bitcoins, vai ter que conectar seu software, buscar seu pen drive, abrir o cofre para pegar o papel…
Além disso, aparecem outras questões. Por exemplo, o que é mais possível de acontecer: você perder um pen drive em casa ou um hacker invadir a conta da corretora? Você derramar café em cima da sua paper wallet ou a corretora sumir com seus bitcoins? Seu computador ser danificado em uma forte chuva, alagamento, terremoto, ou o data center da corretora ser afetado?
Com a popularização das criptomoedas, as corretoras se profissionalizaram e, além de ter bons mecanismos de segurança, elas também têm responsabilidades legais. Se uma corretora perder seus bitcoins, por exemplo, você pode entrar na justiça e cobrar uma indenização por danos materiais, pedindo o ressarcimento do valor equivalente.
Por isso, não existe uma resposta certa para todo mundo sobre qual é a melhor solução para guardar os seus bitcoins.
Você pode inclusive misturar soluções. Pode por exemplo deixar parte dos seus bitcoins na corretora ou em hot wallets, por motivos de praticidade, e outra parte em uma cold wallet, se você tiver condições de garantir a segurança da cold wallet. Espalhar seus bitcoins em vários lugares também aumenta a proteção, porque assim você não tem um único ponto de falha.
Você já deve ter notado que usar bitcoin não é igual a usar uma moeda comum. Você tem mais soberania sobre o seu dinheiro, mas ao mesmo tempo tem que lidar com questões que não teria que lidar se estivesse usando moedas nacionais. Cabe a você fazer uma análise de risco, aumentar os seus conhecimentos e aí decidir qual é a melhor opção para proteger os seus bitcoins.
Not your keys, not your coins. O ditado do mundo das criptomoedas mostra como você deve ter responsabilidade sobre os seus bitcoins, seja para proteger seu patrimônio usando wallets, seja para assumir os riscos de deixar seus bitcoins na corretora.
Qualquer que seja o caso, uma coisa é certa: você precisa de conhecimento. Você precisa entender o que está fazendo para ter mais segurança e para poder ganhar mais dinheiro nesse novo mundo das criptomoedas.
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