Origens do Bitcoin: Hayek

Quando surgiu o Bitcoin? Algumas pessoas diriam que a data oficial é 31 de outubro de 2008. Nesse dia, o programador Satoshi Nakamoto enviou um email para uma lista de discussão com o Bitcoin White Paper, um artigo que ele escreveu explicando o que seria e como funcionaria o Bitcoin. MAS… este foi apenas um artigo teórico. Por isso é que outras pessoas dizem que o Bitcoin surgiu no dia 4 de janeiro de 2009, quando o primeiro bloco de bitcoin foi gerado na rede. Já outros diriam que a data certa é 4 de janeiro de 2008, quando o domínio bitcoin.org foi registrado.

É possível argumentar que a ideia do bitcoin surgiu em 1984. Foi nesse ano que o economista Friedrich Hayek disse:

“O dinheiro não melhorou. O dinheiro piorou com o passar do tempo. Os governos disseram que o dinheiro não deve se desenvolver mais e o que tivemos desde então no desenvolvimento são questões de intervenções governamentais, principalmente erradas, principalmente abusos de dinheiro e cheguei à posição de perguntar:

‘A política monetária já fez algum bem?’ Eu acho que não. Acho que só fez mal.

É por isso que agora estou pedindo o que chamo de desnacionalização do dinheiro. Não acredito que voltemos a ter um bom dinheiro antes de tirarmos a coisa das mãos do governo. Porque não podemos tirar isso violentamente das mãos do governo. Tudo o que podemos fazer é, de alguma forma dissimulada ou indireta, introduzir algo que eles não podem impedir.”

Ele está descrevendo o Bitcoin.

Podemos dizer que a ideia do Bitcoin sempre existiu e que é tão antiga como a matemática. Podemos dizer que o Bitcoin não foi inventado e, sim, descoberto. Foi implementado com o primeiro bloco, porém é uma ideia muito antiga, que teve que esperar a tecnologia evoluir até um ponto em que essa ideia pudesse ser implementada.

E que ideia é essa? A ideia de que o dinheiro não pode ter uma autoridade central que o controle. Essa concentração de poder leva a abusos, intervenções e roubo. É o que acontece hoje, em que os governos controlam o dinheiro de um país. Pior: é o que acontece no mundo, quando boa parte da economia mundial depende do dólar americano e de um sistema financeiro internacional controlado pelos Estados Unidos.

Atenção: este não é um serviço financeiro. Leia o aviso antes de continuar.

1. A ideia por trás do bitcoin é libertar as pessoas de um dinheiro manipulado por poucos.

Uma nova ordem monetária mundial está surgindo. Gradualmente, o mundo vai percebendo que existe um risco muito grande em ser dependente do dinheiro controlado pelos governos. Essa percepção começou dentro de cada país, mas hoje se espalha para a economia internacional.

Já tem algum tempo que as pessoas e as empresas sabem que não é uma boa ideia depender de um sistema financeiro internacional controlado pelos Estados Unidos. Mas as sanções em níveis nunca vistos que os Estados Unidos e seus aliados aplicaram à Rússia deixou tudo muito claro.

Os outros países viram aquilo tudo e começaram a pensar: epa, peraí! E se um dia os Estados Unidos não concordarem com alguma posição do meu governo? E se eles decidirem impor sanções assim contra a minha economia? E se eles me excluírem do sistema Swift também e me deixarem de fora do sistema financeiro internacional?

Claro que o dólar não vai perder a posição de moeda de referência internacional do dia para a noite. Aliás, quem tem acompanhado o Dollar Index DXY tem visto que o dólar está ganhando força no curto prazo. Mas, pensando no longo prazo, vários países já começam a pensar em alternativas.

Diante da possível queda do dólar como protagonista da ordem monetária mundial no futuro, especialistas começam a se perguntar: qual bem pode substituir o dólar como dinheiro de referência internacional? Uma resposta clássica é o ouro, por ser uma commodity com características de dinheiro forte e escasso. Mas Hayek tinha outra ideia, mais original: um dinheiro baseado em outras commodities.

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2. O problema do dinheiro baseado em commodities é que não se trata de um dinheiro forte. Até a chegada do Bitcoin.

Antes de continuarmos, vamos deixar uma coisa bem clara: Hayek foi um economista que contribuiu para o conhecimento com ideias inovadoras que merecem ser estudadas. Não é por acaso que ganhou o prêmio Nobel, influenciou toda uma geração de economistas e é discutido até hoje. Você pode concordar ou não concordar com as ideias dele, mas não pode negar que se trata de um economista relevante. Para se aprofundar, você pode ler o Denationalisation of Money.

Uma das ideias mais interessantes de Hayek era a do dinheiro baseado em commodities.

A palavra commodity corresponde a produtos básicos internacionais que não passam por um processo de industrialização. São simplesmente matérias-primas, como platina, soja, petróleo, ouro ou qualquer outro produto que possa ser trocado um pelo outro, independentemente de onde foram produzidos.

Por conta disso, as commodities têm preços internacionais. Como elas são negociadas entre países, os preços são formados pela oferta e pela procura de todos os países em conjunto.

Dessa forma, as commodities em teoria poderiam ser usadas como dinheiro. Vamos dar um exemplo hipotético para a ideia do dinheiro commodity ficar mais clara.

Imagine que o seu país quisesse ter uma reserva equivalente a um milhão de dólares. O seu país pode ter esse valor depositado em dólar mesmo ou em títulos do tesouro americano, mas nesse caso ele ficaria à mercê dos Estados Unidos.

Se os Estados Unidos adotassem políticas monetárias inflacionárias, isso implicaria numa exportação de inflação e desvalorizariam a reserva de valor do seu país. Nominalmente, o seu país continuaria com um milhão de dólares na conta. Mas agora esse um milhão de dólares tem um poder de compra menor do que tinha antes de o governo dos Estados Unidos diluir a moeda, provocar inflação de dólar e assim desvalorizar o que o seu país tinha.

Para uma proteção, em vez de o seu país armazenar esse equivalente a um milhão de dólares em dinheiro ou em títulos do tesouro americano, o seu país armazenaria commodities como platina, soja ou petróleo em uma quantidade equivalente a um milhão de dólares.

Nesse caso, a influência dos Estados Unidos não seria direta sobre a reserva de valor do seu país. Pelo contrário, se as commodities se valorizassem no mercado internacional, a reserva de valor do seu país até aumentaria.

Olhando assim, parece uma boa ideia. Mas o dinheiro lastreado em commodities corre o risco da armadilha do dinheiro fácil que já explicamos no episódio dois da série Dinheiro Arata. Até a chegada do bitcoin, o dinheiro-commodity não tinha como fugir da armadilha do dinheiro fácil.

A armadilha do dinheiro fácil pode ser entendida assim: se um bem serve como dinheiro e se valoriza no mercado, logo muitas pessoas vão se interessar em produzir aquele bem. Por isso, só bens muito difíceis de produzir podem servir como dinheiro, como ouro ou bitcoin.

Caso contrário, se um bem for muito fácil de produzir, ele vai acabar desvalorizando o dinheiro baseado nele. Assim que esse bem for escolhido como dinheiro, a valorização vai fazer com que muita gente comece a ofertar aquele bem.

Segundo a lei da oferta e da procura, o excesso de oferta daquele bem no mercado vai derrubar os preços. Afinal, se tem muita gente vendendo, a concorrência não pode cobrar um preço muito alto. Essa queda nos preços do bem vai desvalorizar o dinheiro que se baseia naquele bem. E dinheiro desvalorizado não serve para nada. Essa é a armadilha que acaba com muitas soluções fáceis para o dinheiro, incluindo a ideia de dinheiro commodity.

3. Bens sem relação a adequada relação entre estoque e fluxo nunca podem servir como lastro para dinheiro.

Para um bem servir como lastro para dinheiro, é essencial que exista uma relação alta entre estoque e fluxo. Isso é conhecido como modelo Stock-to-flow e nós já falamos sobre ele no episódio nove da série Dinheiro Arata.

Vamos relembrar o que é essa relação entre estoque e fluxo. Estoque é a quantidade de reservas existentes de um produto no mundo. Fluxo é a produção anual desse mesmo produto.

Quando um produto é muito difícil de se produzir, o seu fluxo é baixo. Por causa disso, quem tem esse produto não vende por qualquer preço, preferindo estocar. Assim, o fluxo baixo pode tender a um estoque alto.

O melhor exemplo disso é o ouro. Existe um estoque de cento e oitenta e cinco mil toneladas e um fluxo de três mil novas toneladas de ouro produzidas a cada ano. Dividindo o estoque pelo fluxo, temos um Stock-to-flow alto, de 62.

Por outro lado, outras commodities que são fáceis de serem produzidas têm uma baixa relação entre estoque e fluxo. A platina, por exemplo, tem um stock-to-flow de apenas 0,4. Existe um estoque mundial de oitenta e seis toneladas de platina e um fluxo de duzentos e vinte e nove toneladas de platina produzidas por ano.

Ou seja, o fluxo de platina é maior que o próprio estoque. Assim que a platina é produzida ela já é ofertada para o mercado. Ninguém fica estocando platina porque essa não é uma commodity que vai se valorizar com o tempo. É o contrário do que acontece com o ouro.

Agora vamos fazer um exercício de imaginação. Vamos imaginar um dinheiro lastreado em ouro, como já existiu durante muito tempo e até a década de 1970, e um dinheiro como o imaginado por Hayek, lastreado em commodities.

O dinheiro lastreado em ouro teria um valor relativamente estável. Como a quantidade de ouro estocada é muito maior do que o fluxo anual de produção de ouro, a probabilidade de acontecer uma escassez repentina é pequena.

Mesmo que aconteça oscilação de demanda ou de produção de ouro, os participantes do mercado com grande estoque conseguem vender o ouro que eles têm na quantidade que eles desejam. Se o lastro tem estabilidade, o dinheiro lastreado também terá.

Por outro lado, o dinheiro lastreado em commodities com stock-to-flow baixo seria muito instável. Assim que o mercado detectasse quais as commodities que estariam lastreando o dinheiro, elas se valorizariam. Com o preço mais alto, mais pessoas iriam querer produzir essas commodities, deixando de produzir outras. Como resultado de mais oferta no mercado, o preço das commodities que lastreiam esse dinheiro ia começar rapidamente a cair, desvalorizando o dinheiro.

Além disso, as commodities têm uma utilização na vida prática das pessoas. O petróleo é usado para energia. A platina, para equipamentos eletrônicos. Quando alguns bens fossem escolhidos para lastrear dinheiro, o mercado teria incentivo em estocar esses bens como reserva de valor em vez de usar essas commodities na vida real. Isso poderia trazer muitos problemas.

O mercado ficaria desequilibrado e o dinheiro lastreado em commodities seria muito instável. Por isso a ideia de um dinheiro lastreado em uma cesta de commodities não sobrevive ao teste real da economia.

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4. A desnacionalização do dinheiro era o que movia a ideia de um dinheiro lastreado em commodities. Hoje, existe uma alternativa para o objetivo sonhado por Hayek.

Qual é a ideia de Hayek por trás do dinheiro lastreado em commodities? O objetivo buscado é a desnacionalização do dinheiro, é tirar poder do estado e colocar de volta nas mãos dos indivíduos.

No início, o dinheiro não pertencia ao estado. O dinheiro foi criado pelos indivíduos para resolver problemas particulares. Por isso ele se baseava em ouro, prata ou outro bem muito difícil de se conseguir.

Com o tempo, os estados passaram a se apropriar do dinheiro. Primeiro os governantes passaram a colocar seus símbolos para garantir que uma moeda de ouro ou prata realmente valia o que dizia. Depois os metais foram sendo substituídos por papéis que representavam aquele valor em ouro. E por fim o lastro em ouro foi completamente abandonado na década de 1970.

Hoje o dinheiro só vale o que vale por causa de uma suposta confiança nos governos. Se os governos perdem confiança, o dinheiro que você trabalhou a vida inteira para juntar pode se desvalorizar em poucas semanas. Se o governo decidir imprimir mais e mais dinheiro, inflando a oferta de moeda no mercado, o poder de compra do seu salário diminui drasticamente.

A ideia de desnacionalizar o dinheiro é para permitir que o valor do dinheiro seja determinado livremente pelas leis do mercado.

As commodities negociadas internacionalmente têm os seus preços formados pela oferta e pela procura internacional. Por isso, em tese, um dinheiro lastreado em uma cesta de commodities negociadas no mercado internacional estaria mais ou menos livre da esfera de influência de um só governo e teria o seu preço ditado pelas leis do mercado.

Na época de Hayek, essa era praticamente a única opção. Para entender melhor, lembre que ele viveu de 1899 a 1992 e escreveu suas principais obras entre as décadas de 1920 a 1940.

Hoje existe uma alternativa para a desnacionalização do dinheiro. Uma forma de dinheiro que não é controlada por nenhum país, que não tem nenhuma autoridade central, que foi criada por indivíduos para resolver problemas particulares, que tem uma relação estoque e fluxo semelhante à do ouro e que tem seu preço formado livremente pelo mercado. Essa forma de dinheiro é o Bitcoin.

5. O bitcoin é uma solução para a desnacionalização do dinheiro muito superior à ideia do dinheiro lastreado em commodities.

A influência de Hayek e da economia liberal sobre o bitcoin é enorme. O primeiro proponente do Bitcoin, Satoshi Nakamoto, nunca deixou explícito que o seu trabalho se baseava na Escola Austríaca de Economia, mas o fato é que o Bitcoin tem as características de um dinheiro desnacionalizado que era o sonho de Hayek.

A maior das muitas inovações trazidas pelo Bitcoin é justamente a ausência de uma autoridade central, a ausência de um órgão controlador, a ausência de um governante decidindo como a moeda será emitida e como as pessoas podem usar o dinheiro delas.

O Bitcoin substituiu essa figura central pela própria rede horizontal de usuários. Cada nó da rede do Bitcoin tem a possibilidade de verificar todas as transações já realizadas desde que o Bitcoin começou a funcionar. Alguns usuários que atuam como mineradores fazem a verificação das transações e garantem a segurança da rede, sendo recompensados na forma de novos bitcoins emitidos.

Além disso, as regras de funcionamento do Bitcoin estão programadas no software. Elas são conhecidas por todos e praticamente imutáveis. Ou seja, não é possível acontecer uma mudança súbita ou unilateral.

Assim, a própria rede de pessoas que usam o Bitcoin substitui a necessidade de uma autoridade central. Como essas pessoas estão espalhadas em pé de igualdade por todo o planeta, o bitcoin é essencialmente um dinheiro desnacionalizado, exatamente como Hayek imaginou.

A diferença é que o Bitcoin foi programado para ser escasso. Tecnicamente, o Bitcoin é uma commodity mais escassa até mesmo do que o ouro. É uma limitação absoluta e verificável. Isso porque existe uma quantidade limite de menos de vinte e um milhões de unidades de bitcoin que podem ser emitidas. Não importa o que aconteça, o software foi programado para nunca passar disso. Já com o ouro, o único limite é o da tecnologia para garimpar mais ouro. Pode ser que no futuro existam máquinas que consigam detectar e cavar bem fundo na Terra para achar mais ouro. Ou que existam naves que consigam minerar ouro no espaço.

Essa escassez programada garante que o bitcoin tenha uma relação stock-to-flow alta. Além de existir o limite máximo de emissão de bitcoin, a dificuldade de mineração das novas unidades vai sendo automaticamente ajustada pelo software de acordo com a quantidade de unidades que faltam ser mineradas e de acordo com a quantidade de máquinas minerando bitcoins.

A cada quatro anos, o software do bitcoin está programado para executar um processo conhecido como halving, que significa a redução pela metade da emissão de bitcoin. Em 2008, quando a rede entrou em funcionamento, era mais fácil minerar bitcoins e a recompensa era maior. Quatro anos depois, em 2012, aconteceu o primeiro halving e a recompensa foi cortada pela metade. Isso se repetiu em 2016 e 2020 e vai acontecer novamente em 2024.

Cada vez que um halving é executado, o fluxo de produção de bitcoins diminui e a escassez aumenta, garantindo que a moeda não vai se desvalorizar, caso a demanda continue igual.

Com o histórico do blockchain e o halving acontecendo a cada quatro anos, você pode saber exatamente quantos bitcoins já foram minerados e estão em circulação. Você também pode ter uma boa previsão matemática de quantos bitcoins serão minerados até que a última das vinte e um milhões de unidades seja produzida, o que deve acontecer por volta do ano 2140.

Toda essa programação foi pensada propositalmente, justamente para evitar o problema que o dinheiro lastreado em commodities sofreria. No dinheiro commodity, todo mundo ia correr para produzir mais das commodities que entrariam em processo de valorização quando fossem escolhidas para lastrear a moeda. No Bitcoin, quando muitas pessoas tentam ao mesmo tempo minerar, a dificuldade vai ser ajustada. E a cada quatro anos a recompensa vai ser reduzida pela metade.

Isso significa que o dinheiro commodity tem uma certa lógica por trás. A lógica de desnacionalizar o dinheiro, de deixar o dinheiro livre de um ponto central de influência e vulnerabilidade. A questão é que, na época de Hayek, não existia uma solução tecnicamente viável para executar a desnacionalização do dinheiro.

Hoje essa solução existe e se chama Bitcoin. Isso não significa necessariamente que o bitcoin vai ser o bem escolhido para substituir mesmo que parcialmente o dólar americano na nova ordem monetária mundial. Provavelmente o ouro vai levar vantagem nessa disputa, inclusive por questões de tradição e de medo do novo. Mas, do ponto de vista conceitual, o bitcoin tem todas as características para servir como moeda de referência e por isso vale a pena entender como usar na prática.

Hayek foi um visionário. Décadas atrás, ele já tinha ideias para o dinheiro que reduziam o poder do estado e devolviam poder para as pessoas. Ideias que estavam muito à frente da tecnologia de seu tempo.

Na época de Hayek, não existia uma boa solução para um dinheiro desnacionalizado, livre dos arbítrios de um país ou de um governante qualquer. Mas hoje nós temos essa solução: o Bitcoin.

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