Bitcoin e criptomoedas são duas coisas diferentes. E essas diferenças podem trazer um grande impacto para o seu bolso.
Bitcoin é dinheiro de verdade: escasso, descentralizado, regido por regras matemáticas e imutáveis, sem dono.
As criptomoedas, por outro lado, são apenas ativos digitais criados por uma pessoa ou um grupo de pessoas. Elas não são realmente escassas, podem ser modificadas e, principalmente, as criptomoedas têm dono.
Por isso, as criptomoedas são muito mais parecidas com dinheiro fiat, com moeda tradicional, do que com bitcoin. As pessoas costumam perceber criptomoedas, bitcoin e dinheiro fiat assim, como se de um lado tivéssemos o dinheiro tradicional e de outro lado tivéssemos criptomoedas como um grupo geral e o Bitcoin como uma das várias criptomoedas. Mas quando você realmente entende mais e estuda, passa a entender que o mais correto é enxergar as criptomoedas assim, como uma subcategoria do dinheiro tradicional. E o Bitcoin é único, como uma categoria à parte.
Atenção: este não é um serviço financeiro. Leia o aviso antes de continuar.
1. O teste de Howey deixa claro que o investimento em criptomoedas é feito com expectativa de ganhos e depende dos esforços dos seus fundadores.
Existem mais de vinte mil espécies de criptomoedas em circulação e cada uma tenta prometer algo diferente para justificar sua razão de existir. Mas o que todas as criptomoedas têm em comum?
Todas as criptomoedas têm dono. O bitcoin não tem. Todas as criptomoedas são centralizadas por ter fundadores. Isso tem enormes implicações e justifica colocarmos dentro da categoria do dinheiro tradicional, do dinheiro fiat, do dinheiro que é criado do nada pelos governos.
Para entender melhor essa classificação, você precisa conhecer o caso da Suprema Corte dos Estados Unidos, SEC v. W. J. Howey Co.
Este foi o caso que deu origem ao teste de Howey, uma forma de determinar se um investimento é ou não um título de valor mobiliário. Quando o investimento é um valor mobiliário, ele deve atender a todos os requisitos específicos da legislação de valores mobiliários que buscam evitar fraudes e proteger investidores de golpistas.
O caso envolvia a venda de pomares de laranja na Flórida pela W. J. Howey Company. A empresa anunciou a venda como uma oportunidade de investimento. No entanto, a SEC (Securities Exchange Commission, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos) argumentou que a venda era, na verdade, um contrato de investimento, um tipo de título de valor mobiliário.
Os compradores não estavam interessados em laranja. Eles estavam investindo com a expectativa de ganhar lucros com a venda de laranjas cultivadas nos pomares. Eles queriam comprar por um preço menor e depois vender por um preço maior.
Hmmm… parece muito quando você compra um token de uma cripto mas que você não usa para nada e na verdade somente está adquirindo aquele token com a expectativa de lucrar depois revendendo… mas vamos continuar com o ponto mais importante:
Os compradores estavam confiando na Howey Company para gerenciar e manter os pomares para obter lucro. Esses lucros dependiam dos esforços da Howey Company, e não dos esforços dos compradores.
A Suprema Corte decidiu a favor da SEC, dizendo que a venda dos pomares de laranja era um contrato de investimento e, portanto, um título de valor mobiliário.
Por isso que dizemos que o teste de Howey tem quatro elementos: um investimento de dinheiro, em uma empresa comum, com a expectativa de lucros e dos esforços de outros. O teste de Howey é usado pela SEC e outros órgãos reguladores para determinar se um investimento é um título de valor mobiliário.
Examine o projeto de qualquer criptomoeda. Existem fundadores, existe marketing, existe equipe, existe canal oficial deles em redes sociais, existe site oficial, existem servidores hospedados dentro da Amazon, existe até escritório.
Quando você compra alguma criptomoeda, você está dependendo do esforço deste time para fazer o seu investimento te dar lucro. Portanto, essa criptomoeda acaba “passando” pelo teste de Howey e fica caracterizada como um valor mobiliário.
Isso não acontece com o bitcoin, que não passa no Teste de Howey. O bitcoin não tem uma empresa por trás, não possui uma equipe fazendo marketing, mantendo site oficial ou contratando advogados e lobistas. Ele tem uma utilidade em si mesmo, ainda que algumas pessoas especulem com bitcoin do mesmo jeito que especulam com outras commodities, como o ouro.
2. As empresas de criptomoedas fazem lobby nos mais altos escalões do governo para não serem caracterizadas como valor mobiliário.
Apesar de ficar claro como as criptomoedas são valores mobiliários por atenderem todos os requisitos do teste de Howey, elas contam com advogados e lobistas que circulam entre o governo para mudar a interpretação ou buscar uma lei nova e especial.
Caso eles fracassem, vai ficar caracterizado que são valores mobiliários não-registrados. Este é um grande problema para os donos destas criptomoedas. Todo valor mobiliário precisa ser registrado na comissão de valores mobiliários e atender vários requisitos por buscar captar dinheiro de investimento do público geral.
Se os tokens foram vendidos para o público americano sem esse registro, então a venda foi ilegal e portanto pode receber multas e outras penalidades.
O motivo disso tudo é que as criptomoedas fazem captação de recursos com os lançamentos iniciais de tokens ou moedas. Isso tem uma semelhança com o IPO, o Initial Public Offering, que é quando uma empresa abre capital na bolsa.
Isso fica ainda mais grave no caso de criptomoedas que fazem o que se chama de premine ou pré-mineração. Os fundadores criam uma enorme quantidade de tokens iniciais para eles mesmos e então resolvem vender uma pequena parte para o público. É assim que eles criam dinheiro a partir do nada.
Compare novamente com o bitcoin. Em vez de ter um dono, o bitcoin tem uma concepção imaculada. Ninguém recebeu bitcoins de graça: todos tiveram que usar a Prova de Trabalho para receber bitcoins. Veja o episódio 21 da série Dinheiro Arata para entender.
3. A pré-mineração é imoral porque faz as pessoas investirem dinheiro em algo que não tem valor.
Você acha certo convencer alguém a investir em algo que não tem valor? O enriquecimento de fundadores de criptomoedas é por si só um ato imoral, pois eles criam seus tokens a partir do nada e extraem dinheiro de verdade dos investidores que entram depois. Esqueça pelo momento se o teste de Howey será aplicado ou não, pois isso realmente depende de advogados e juízes e lobistas decidirem como será o futuro. Vamos nos concentrar no aspecto ético e moral.
Alguém poderia argumentar a favor das criptomoedas dizendo que não é a partir do nada e que existem custos de pesquisa, desenvolvedores, de design e identidade visual e que os fundadores precisam fazer parcerias com empresas de reputação. Mas veja que mesmo assim os custos de tudo isso são baixíssimos, principalmente por tudo ser digital e não existir um produto realmente útil por trás. O dinheiro movimentado com a especulação é desproporcional com o real valor e esforço que existe no projeto.
Num IPO de uma empresa real, o dinheiro captado é usado para financiar operações, construir fábricas, equipamentos, expandir internacionalmente, enfim, fazer algo de verdade, um produto real que foi validado pelo mercado poder ganhar escala. No caso de lançamento inicial de tokens, a ideia é principalmente enriquecer os fundadores e investidores iniciais, tentando encontrar alguém que vai comprar a preço ainda maior, e metaforicamente ficar segurando a sacola, de acordo com a Teoria do Mais Tolo.
É por isso que quando você examina gráficos de movimento de preço de criptomoedas, muitas vezes encontra uma curva parabólica de aumento de preço seguido de uma queda que nunca se recupera.
O custo inicial dos fundadores e investidores iniciais é próximo de zero e portanto eles conseguem ganhos astronômicos, muito maiores do que qualquer trader que só entra depois das alocações iniciais serem feitas.
Este enriquecimento próprio às custas dos outros é imoral pois os fundadores tiram vantagem em uma situação assimétrica de risco e informação que fica ainda mais grave caso a criptomoeda seja declarada como um valor mobiliário não registrado. Além disso, mesmo a informação que é tornada pública sobre as regras da distribuição podem ter sido fraudadas. É muito comum que os fundadores e investidores iniciais criem múltiplas contas para si mesmos para ultrapassar o limite máximo por pessoa na alocação.
Caracterizada a criptomoeda como um projeto imoral, o fato de você comprar tokens, mesmo que seja para especular comprando e vendendo no mesmo dia, isso também torna o seu ato imoral. Financiar imoralidades é um ato imoral em si.
Ao comprar criptomoedas, você está financiando a continuação deste tipo de imoralidade. Você pode encontrar os argumentos para isso em diferentes visões filosóficas como o utilitarismo de Stuart Mill que mostra que como a maior parte das pessoas vai ficar segurando um token abaixo do preço de aquisição, existe maior infelicidade sendo causada.
Já na visão de Kant, estamos sendo imorais ao buscar tirar vantagem de outros para tentar vender os tokens sobrevalorizados e isso fica ainda mais grave no caso de influenciadores que promovem essas criptomoedas e recebem pagamentos e alocações iniciais para isso.
Não precisa nem mesmo procurar por filósofos famosos. Basta lembrar que financiar a imoralidade é um ato imoral.
4. Bitcoin é diferente por ser verdadeiramente descentralizado, escasso e imutável.
Nós já contamos a história do bitcoin algumas vezes aqui na série Dinheiro Arata. Para diferenciar bitcoin e criptomoedas, de um jeito bem resumido, o que você precisa lembrar é que o bitcoin é o único dinheiro descentralizado. Não existe pré-mineração. Não existe um grupo de fundadores.
Sempre que os governos colocam mais dinheiro para circular no mercado, o excesso de oferta desvaloriza o dinheiro que você ganha e guarda. Com isso, a inflação diminui o poder de compra do dinheiro que você trabalha tanto para ganhar.
O bitcoin buscou uma solução para isso. Com um sistema elegante de emissão de moeda baseado em regras matemáticas, o bitcoin conseguiu construir uma rede sem donos. Todas as regras são previamente conhecidas e também são imutáveis.
O bitcoin é um bem, assim como o ouro. Por outro lado, as criptomoedas são valores mobiliários que captam dinheiro do público com o objetivo de gerar lucro dependendo dos esforços de terceiros, assim como um fundo de investimento.
Então, do mesmo jeito que ouro e fundos de investimentos são coisas bem diferentes, bitcoin e criptomoedas também são.
5. Como as criptomoedas são centralizadas, o dinheiro que você investe nelas não é realmente seu. Só o bitcoin te dá soberania sobre o seu dinheiro.
Quando você coloca seu patrimônio em criptomoedas, o seu dinheiro não é realmente seu. Ele é dos donos das criptomoedas. Pelo menos até que você consiga com sorte vender com lucro e reaver o que investiu.
Perceba que esse é um comportamento puramente especulativo. Você espera comprar uma criptomoeda na baixa para depois vender na alta, obtendo um lucro. Só que esse lucro não vai ser na criptomoeda que você escolheu e sim em dinheiro fiat. Ou seja, a criptomoeda não é dinheiro de verdade nem é seu dinheiro.
Se você quer proteger o seu patrimônio de um jeito que o dinheiro seja realmente seu, a única opção viável hoje é o bitcoin. Só uma moeda verdadeiramente descentralizada como o bitcoin te dá soberania sobre o dinheiro.
Nessa conversa eu não vou explicar os detalhes técnicos e práticos disso, mas você pode se aprofundar no assunto acessando este link
O que eu espero que tenha ficado claro aqui é que bitcoin não é um tipo de criptomoeda, assim como o ouro não é um tipo de fundo de investimento. Estamos falando de coisas diferentes. Então aprenda a fazer essa diferença na sua cabeça e nunca mais confunda bitcoin com criptomoeda. O seu bolso agradece.
Bitcoin e criptomoedas são coisas diferentes.
Se você quer investir em dinheiro de verdade, em uma moeda realmente escassa, descentralizada, sem donos, estude mais sobre bitcoin e deixe o resto de lado.
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