Rápido e Devagar, de Daniel Kahneman

Responda rápido: quanto é dois mais dois? Muito fácil, né?

Agora, responda rápido: quanto é dezessete vezes vinte e quatro? Hum… agora complicou um pouco né? Sabe por quê?

Quando eu te pergunto quanto é dois mais dois, a sua mente responde no automático: quatro. Você já ouviu essa pergunta várias vezes durante a sua vida e o seu cérebro tem um atalho para responder quase que involuntariamente.

Agora, quando eu te peço para multiplicar dezessete por vinte e quatro, você tem que parar, pensar e fazer a conta. Só depois você pode responder: quatrocentos e oito.

Nosso cérebro tem essas duas formas de pensar: uma rápida, outra devagar. Uma não é melhor que a outra. Mas, se na hora de tomar decisões, você sabe quando usar a forma rápida de pensar, e quando usar a forma devagar, isso fará toda a diferença para os resultados que você obtém na vida.

No Resumo Arata Academy de hoje, nós vamos discutir as ideias do livro Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, escrito por Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia de 2002.

Conhecendo essas duas formas de pensar, você vai saber como tomar decisões melhores, evitando pensar rápido quando deveria pensar devagar e vice-versa.

Atenção: este é apenas o resumo de um livro. Leia o aviso completo antes de continuar.

1. Seu cérebro tem dois sistemas: um de associação rápida e outro de capacidade máxima.

Existem dois sistemas na sua mente.

O Sistema 1 é o pensamento rápido. Ele opera com pouco esforço, de maneira quase involuntária. Quando eu pergunto a você quanto é dois mais dois, o seu cérebro pensa na resposta “quatro” mesmo sem você querer.

O modo rápido de pensar é usado o tempo todo. É como o cérebro entende coisas como frases simples, a distância entre objetos, ou a emoção passada pela expressão facial de uma pessoa.

Imagine um motorista experiente dirigindo em uma rua vazia. Mesmo apesar de dirigir ser uma atividade complexa que exige que o motorista olhe para a estrada à frente, cheque os espelhos retrovisores, segure o volante, pise no freio, no acelerador … o cérebro de um motorista experiente já faz aquilo tantas vezes que agora ele opera quase no automático. Ele consegue até conversar, cantar, ou refletir sobre a vida enquanto dirige em uma rua tranquila.

Já o Sistema 2 é o do pensamento devagar. Quando eu pergunto o resultado de dezessete vezes vinte e quatro, o seu cérebro não tem um atalho pronto para dar a resposta. É provável que você nunca tenha ouvido essa pergunta antes. Então o seu cérebro tem que parar, pensar devagar, fazer a conta e chegar ao resultado.

O Sistema 2 é ativado por demandas que exigem esforço e atenção da sua mente.

Para ficar no mesmo exemplo, pense em uma pessoa que está aprendendo a dirigir agora. Ela precisa de concentração máxima para não bater o carro. Precisa focar na pista, coordenar os pés para pisar nos pedais certos, usar as mãos para segurar no volante, olhar o retrovisor de tempos em tempos para ver o comportamento de outros motoristas, prestar atenção em todo o ambiente ao redor…

O Sistema 1 é o modo rápido de pensar. O Sistema 2 é o modo devagar. E essas duas formas de pensar dependem uma da outra. O Sistema 1 gera sugestões, emoções e intuições para o Sistema 2. Se validadas pelo Sistema 2, as intuições se transformam em crenças e os impulsos se transformam em ações pensadas.

O segredo para tomar boas decisões é saber quando usar o Sistema 1 ou o 2. Se você está em uma situação que exige uma resposta rápida e o seu cérebro entrar no modo devagar, você pode perder uma oportunidade. Se a situação exige calma e reflexão, mas você decide rapidamente com base em intuição e emoção, você pode tomar decisões erradas.

O Sistema 1 opera no automático. É ação e reação. Por isso os erros na hora de tomar decisões são tão frequentes. Esses erros são chamados de vieses cognitivos e são difíceis de prevenir completamente. Mesmo assim, você pode reduzir esses erros se aprender a reconhecer com que sistema o seu cérebro está operando.

O objetivo é identificar situações em que você está mais propenso a errar. Assim poderá evitar esses erros, principalmente em decisões de grande impacto para sua vida.

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2. O modo rápido de pensar domina a maior parte do seu tempo e faz o seu cérebro economizar energia.

Se você parar para refletir, verá que a maior parte da sua vida é resolvida no modo automático. Quase todo o seu tempo é tomado por pequenas demandas que você responde rapidamente, usando o Sistema 1.

Você acorda e tem que decidir sair da cama. Tem que decidir o que comer. Que roupa vestir. A hora de sair. A próxima tarefa do trabalho a fazer. A hora de parar para almoçar. O que almoçar, e cada pequeno detalhe do dia a dia.

São pequenas decisões, constantes, no modo automático. Tudo o que o seu cérebro está acostumado a fazer é tratado pelo Sistema 1. Essas respostas habituais ajudam o seu cérebro a economizar energia.

Mas o que é que acontece diante de situações difíceis? Quando você está diante de problemas complexos, o Sistema 1 procura substituir a dificuldade por algo fácil. Chamamos isso de heurística.

Heurística significa um método para resolver problemas novos com base na resolução de problemas anteriores. A resposta baseada em heurística normalmente é satisfatória, embora não seja perfeita.

Por exemplo, imagine que você é um investidor e precisa decidir qual ação você vai comprar.

A lógica seria você tomar essa decisão com base no Sistema 2, no modo devagar de pensar. Como investidor, você deveria se fazer a seguinte pergunta: vale a pena comprar a ação dessa empresa agora e por esse preço? Os números indicam que esse preço vai subir no médio e no longo prazo? É melhor eu investir nessa ação ou em outra empresa?

Em vez disso, o Sistema 1 substitui essa questão complexa por uma pergunta heurística simples: o quanto eu gosto dessa empresa?

Perguntas heurísticas ajudam a navegar pelas dificuldades da vida. Mas, se uma pessoa sempre evita pensar devagar, acaba validando respostas simplórias para perguntas difíceis. O resultado é uma vida mais difícil do que se aquela pessoa tivesse parado para pensar devagar, com o Sistema 2, na hora de tomar decisões complexas.

3. Conhecer as heurísticas e vieses cognitivos mais importantes te ajuda a evitar erros na hora de tomar decisões.

Todo mundo usa heurísticas. Todo mundo tem vieses cognitivos. Todo mundo quer encontrar uma resposta rápida e fácil mesmo para os problemas difíceis.

Por mais atento e consciente que você seja, o seu cérebro vai querer atalhos para a solução mais rápida. O modo rápido de pensar faz parte da nossa evolução como animais. Nosso organismo evoluiu com a missão de economizar energia para sobreviver.

Isso não significa que você precisa ser refém do modo rápido de pensar. Para fugir das respostas fáceis, identifique as heurísticas e vieses cognitivos mais importantes. Com esse autoconhecimento, quando você se flagrar usando esses atalhos, você pode parar, respirar e pensar devagar para tomar a decisão certa.

Por exemplo, um viés importante que atrapalha a tomada de decisões é o viés de confirmação.

O viés de confirmação é a nossa tendência a interpretar informações de um modo que confirme as crenças que já existem na nossa cabeça.

Imagine uma pessoa que é vegetariana e outra que adota a dieta carnívora. A vegetariana vai buscar informações que confirmam a crença de que remover carne da dieta é melhor para a saúde. Já a pessoa adepta da dieta carnívora vai encontrar estudos que dizem o contrário.

Isso acontece porque nós seletivamente prestamos atenção aos dados que se enquadram na nossa visão de mundo. Ainda que inconscientemente, nós também duvidamos daquilo que não se encaixa nas nossas crenças.

Outro viés importante é a nossa tendência a acreditar que tudo o que vemos é tudo o que existe. Quando pensamos no modo rápido, nós não consideramos a totalidade de dados e de alternativas que existem. Isso nos faz tomar decisões a partir de um julgamento superficial e incompleto.

Esse tipo de julgamento nos leva a outros erros, como a falácia do planejamento e a falácia do custo irrecuperável.

A falácia do planejamento é o erro de subestimar a quantidade de tempo, energia e dinheiro que um projeto vai consumir. Sabe quando você vai começar uma obra na sua casa e planeja gastar dois mil em dois meses, mas no final gasta dez mil em mais de seis meses de obra? Este é um exemplo de falácia do planejamento.

Já a falácia do custo irrecuperável é quando você continua investindo em um projeto mesmo quando fica óbvio que aquilo não vai dar certo. Você já investiu tanto naquilo que reluta em abrir mão do projeto. Se você tivesse uma visão mais ampla e considerasse o custo de oportunidade, provavelmente já teria abandonado o projeto.

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4. Pensar com números ajuda a evitar respostas fáceis, rápidas e muitas vezes erradas. Ainda assim, os números podem te enganar.

Se você envolver números complexos no seu processo de decisão, você força seu cérebro a ativar o Sistema 2, e começa a pensar mais lentamente.

Porém, existem vieses cognitivos que podem te induzir a interpretar mal o que os números querem dizer.

Um exemplo é a lei dos pequenos números. Nosso Sistema 1 tende a tirar conclusões precipitadas quando recebemos informação com poucos dados. Estatísticos chamam isso de uma amostra pequena. E amostras pequenas de dados podem confundir porque mostram resultados extremos com mais frequência do que amostras grandes de dados.

Outro exemplo de erro é ignorar a regressão à média. Nós falamos sobre a regressão à média no episódio 161 da série Oi! Seiiti Arata. Quando fatores aleatórios definem resultados, existe também a tendência estatística de todos retornarem à média. Quem tem sorte hoje pode sofrer no futuro. E quem tem resultados ruins hoje pode ter bons resultados no futuro. Não existe uma razão específica. É aleatório.

Ainda assim, o seu cérebro vai criar relações de causa e efeito superficiais para explicar porque os resultados melhoraram ou pioraram. Essa é a falácia da narrativa. Você cria histórias coerentes para justificar algo aleatório, e ganha uma falsa confiança de como prever resultados futuros.

Quer mais um exemplo de como os números enganam? Sabe quando você descobre um produto extremamente caro, e depois você acha aquele produto com um descontinho? O produto ainda é caro. Mas, quando você compara com o preço EXTREMAMENTE alto, o Sistema 1 te engana, pensa rapidamente e acha que o preço está bom.

Isso se chama ancoragem. É uma estratégia muito útil a publicitários para fazer você comprar produtos e serviços por um preço elevado. A primeira impressão é a que fica, e influencia na sua decisão, especialmente no impulso, sem pensar com calma.

O viés de disponibilidade faz com que emoções tenham um peso excessivo. Dados frios e racionais são subvalorizados, enquanto emoções são sobrevalorizadas no nosso processo de decisão. Nossa tendência é usar crenças e estereótipos, mesmo quando isso contraria as estatísticas.

5. A ilusão de que somos seres racionais nos leva a tomar decisões equivocadas.

No século dezoito, quando o capitalismo industrial começava a evoluir, vários estudos definiram os consumidores como seres racionais e o mercado como algo altamente eficiente.

A Teoria da Utilidade Esperada dizia que as pessoas são agentes racionais que calculam a utilidade de cada situação para tomar a melhor decisão. O problema é que a Teoria da Utilidade Esperada falhou em explicar a nossa aversão ao risco.

Imagine que você está em um experimento e precisa decidir entre duas opções. Na primeira opção, você tem oitenta por cento de chances de ganhar cem dólares ou vinte por cento de chances de ganhar dez dólares. Na segunda opção, você tem a certeza de ganhar oitenta dólares. Qual opção você escolheria?

Se a Teoria da Utilidade Esperada realmente funcionasse, a decisão lógica levaria a maioria das pessoas a escolher a primeira opção, que tem um valor esperado maior. Mas a realidade é que a maioria das pessoas prefere a segunda opção, ainda que o valor esperado seja menor.

O cálculo do valor esperado da primeira opção é oitenta por cento de cem dólares, somado a vinte por cento de dez dólares, que é equivalente a oitenta dólares mais dois dólares, que é um valor esperado de oitenta e dois dólares.

Na segunda opção, o valor esperado é de cem por cento de oitenta dólares, que é oitenta dólares. Assim, matematicamente temos que o valor esperado da primeira opção é superior.

A falha na Teoria da Utilidade Esperada é que não somos tão racionais e lógicos quanto imaginamos. Na maior parte do tempo, agimos com base na emoção.

Para compensar essa falha, Daniel Kahneman formulou outra teoria para explicar as nossas decisões: a Teoria da Perspectiva. Essa teoria foi citada na decisão de dar a ele o Prêmio Nobel de Economia de 2002. É uma teoria que pode te ajudar a pensar do jeito certo na hora de decidir.

6. A Teoria da Perspectiva mostra que suas decisões dependem dos seus referenciais individuais.

Decisões não consideram apenas dados objetivos. Decisões são influenciadas pela perspectiva de mudança no seu referencial. Nesta perspectiva de mudança, a possibilidade de perder alguma coisa que já temos dispara emoções mais fortes do a perspectiva de ganhar essa mesma coisa.

Existe uma explicação evolutiva para isso, já que organismos que evitam ameaças sobrevivem mais do que outros que buscam oportunidades. Temos muito mais aversão a perder do que desejo em ganhar.

É por isso que, no experimento anterior, a maioria das pessoas rejeitaria a opção 1. Na opção 1, ter 80% de chances de ganhar cem dólares é ótimo. Mas a possível dor nos 20%, em que ganharíamos apenas dez dólares, cria uma aversão forte. Se você escolhesse a opção 1 e ganhasse apenas dez dólares, não sentiria aquilo como ganho. Sentiria como perda dos cem dólares. Além disso, sentiria que perdeu a chance de escolher a opção 2, em que havia a certeza de ganhar oitenta dólares.

Sempre que você avalia uma situação, você faz uma comparação. Essa comparação é geralmente entre o seu estado atual e uma perspectiva esperada. Por exemplo, imagine que você espera um aumento de salário no fim do ano. Se esse aumento não vem, você fica triste, mesmo que a sua situação atual, na prática, não tenha piorado.

O referencial também influencia nas comparações. Por exemplo, se você tem um salário de cem dólares e recebe um aumento de cem dólares, você fica muito feliz. Mas se você tem um salário de mil dólares e recebe o mesmo aumento de cem dólares, a felicidade não é a mesma. Quanto mais você tem, menos impacto subjetivo a mudança traz, mesmo que o valor do aumento objetivamente tenha sido o mesmo.

7. Conhecer os efeitos práticos da Teoria da Perspectiva ajuda você a tomar decisões melhores.

Existem pelo menos quatro implicações práticas na Teoria da Perspectiva que você precisa conhecer para melhorar o seu processo de tomada de decisão: o efeito de possibilidade, o efeito de certeza, o viés de status quo, e os efeitos de enquadramento.

O efeito de possibilidade é o nosso viés de sobrevalorizar a possibilidade de ganharmos alguma coisa.

Nosso cérebro, quando pensa rápido, fantasia sobre pequenas chances de obter ganhos desproporcionalmente grandes. É isso que torna tão atrativo apostar um dólar na loteria na esperança de ganhar um milhão, ainda que estatisticamente as chances sejam quase nulas.

No lado oposto da probabilidade, temos o efeito de certeza. Vamos explicar tudo isso com um exemplo. Qual é o grau de alegria que você sentiria diante de cada uma das seguintes situações em que você está disputando ganhar um prêmio que vale um milhão de dólares?

1) aumento de zero por cento para cinco por cento de chances

2) aumento de cinco por cento para dez por cento de chances

3) aumento de sessenta por cento para sessenta e cinco por cento de chances

4) aumento de noventa e cinco por cento para cem por cento de chances

Se você é como a maior parte das pessoas, ao pensar de modo rápido, sua alegria seria eufórica quando aumenta de noventa e cinco para cem por cento de chances. E o motivo é o efeito de certeza. Agora você tem certeza que vai ganhar. Porém, pensando devagar você deveria perceber que com noventa e cinco por cento você já tinha uma chance muito alta.

Uma outra situação bastante feliz é quando você aumenta suas chances de ganhar de zero por cento para cinco por cento. O motivo é o efeito de possibilidade. Antes, estava garantido que você tinha zero de chances, mas agora, com cinco por cento de chances, pelo menos você pode torcer para ter a sorte. É isso que faz as pessoas jogarem na loteria. Porém, pensando devagar você precisa notar que continua tendo uma chance muito pequena.

Tem também uma situação interessante que acontece quando você aumenta a chance de cinco para dez por cento. Dizemos que neste caso as chances dobraram. E isso é também bastante impressionante se você está pensando rápido.

A situação mais sem graça de todas é quando aumentamos de sessenta por cento para sessenta e cinco por cento. Aqui, não estamos nem com certeza absoluta… não estamos saindo do zero absoluto… e não estamos dobrando as chances. É apenas cinco por cento a mais.

Porém, agora examine as quatro situações pensando devagar, usando o Sistema 2. Em todas as quatro situações, o que está acontecendo é exatamente a mesma coisa. Um aumento de cinco por cento de chances. Porém o nosso modo rápido de pensar avalia cada uma delas de maneira completamente diferente.

Interessante, não? Vamos lembrar o que estamos falando da Teoria da Perspectiva e com este exemplo acabamos de explicar o efeito de possibilidade e o efeito de certeza. Falta falar do viés de status quo e os efeitos de enquadramento.

No viés de status quo, você gosta do que você já conquistou e não quer perder o que já tem, mesmo que o seu eu do passado fosse indiferente sobre ter aquela conquista ou não.

Imagine essa situação: seu chefe diz que você será promovido. Você não havia pedido uma promoção, mas fica feliz com a conquista. Logo depois, seu chefe diz que cometeu um erro, e que a promoção é para outro funcionário. Você sentiria uma perda muito grande. O seu eu do passado nem esperava uma promoção, mas você se apegou à ideia quando a promoção foi anunciada, e agora sente a perda em saber que foi um engano.

Por último, nós temos os efeitos de enquadramento. Sabe aquela história de enxergar o copo meio cheio ou meio vazio, de que tudo depende do seu ponto de vista? A maneira como nós enquadramos uma situação influencia nossas emoções e afeta nossas decisões.

Por exemplo, imagine que você está doente e vai fazer uma cirurgia. Como você ia preferir receber a notícia do médico sobre as suas chances: ele poderia anunciar que você tem noventa por cento de chances de sobreviver ou poderia dizer que você tem dez por cento de chances de morrer na cirurgia. As duas significam a mesma coisa, mas a maioria de nós prefere o enquadramento positivo de saber que temos noventa por cento de chances de sobrevivência.

8. Cada pessoa tem dois eus: o eu que experiencia e o eu que se lembra.

A última parte do livro trata de um novo foco no trabalho de Daniel Kahneman: a felicidade. Esse é um conceito bem mais complexo e difícil de pesquisar do que conceitos econômicos para tomada de decisões.

Existem dois grandes tipos de felicidade: a felicidade momentânea, definida como a alegria em um momento específico; e a felicidade duradoura, aquele sentimento geral de felicidade e bem-estar.

Em outras palavras, existe a felicidade que nós experimentamos e a felicidade que nós lembramos. Isso fez surgir a ideia dos dois eus: o eu experiencial e o eu recordativo.

O eu experiencial responde à seguinte pergunta: está doendo agora? É ele que sente dor e prazer momento a momento. Essa experiência contínua pode ser melhor mensurada pela soma total de momentos de felicidade ao longo do tempo.

Já o eu recordativo responde à seguinte pergunta: como foi isso, no todo? Aqui temos a pessoa que reflete sobre experiências passadas e faz uma avaliação geral do que ela se lembra.

Essas lembranças do passado têm uma influência enorme na forma como pensamos. Depois que o momento de dor ou alegria passou, só o eu recordativo existe quando pensamos sobre o nosso passado. Por isso, o eu recordativo é o que geralmente toma as decisões que vão afetar o futuro.

O eu recordativo avalia o cenário de tomada de decisões de duas maneiras diferentes do eu experiencial. Essas duas maneiras são chamadas de regra do pico-fim, e a negligência com a duração.

A regra do pico-fim faz com que a nossa avaliação sobre algum fato do passado seja determinada pelo pico de intensidade da experiência e pelo fim da experiência. Ela não se importa muito com a média da experiência.

Imagine que você é um grande fã dos filmes do Senhor dos Anéis e decidiu viajar à Nova Zelândia para conhecer os locais de gravação. Deu tudo errado na viagem: o voo atrasou, você perdeu a conexão, a mala não chegou, o cartão de crédito foi cancelado, choveu demais… Porém, durante a viagem, você conheceu o condado e até encontrou pessoalmente com um dos atores do filme, o que foi o pico da experiência. Além disso, no final da viagem, o clima mudou e você pôde conhecer alguns pontos turísticos da Nova Zelândia.

No futuro, quando o eu recordativo se lembrar dessa viagem, provavelmente ele vai avaliar como positiva. Mesmo que a viagem tenha sido ruim a maior parte do tempo, ela teve um bom pico de intensidade e terminou bem.

Já a regra da negligência com a duração diz que a duração da experiência tem pouco efeito sobre a lembrança de uma experiência.

O livro menciona um experimento com mais de cento e cinquenta pacientes que sofreram um procedimento médico doloroso. O procedimento mais curto durou quatro minutos e o mais longo durou mais de uma hora. Na hora de avaliar a dor total, a duração do procedimento não afetou a percepção do sofrimento.

Isso é a regra da negligência com a duração observada na prática: a duração de uma experiência tem pouco efeito sobre a lembrança que nós temos sobre aquela experiência.

Nós priorizamos o eu recordativo sobre o eu experiencial. Estamos mais interessados em ter boas lembranças do passado do que em experimentar o momento presente.

Imagina se alguém te oferecer férias grátis para ir pra um lugar maravilhoso. Porém, você tem que assinar um contrato em que no final da viagem vai ter que tomar uma pílula de esquecimento. E nunca vai lembrar de absolutamente nada dessas férias. E todas as fotos que tirou serão apagadas do seu celular. Você iria? Provavelmente não.

Veja com essa situação imaginária que é muito importante sermos capazes de ter lembranças das férias. E isso explica a diferença entre o “eu recordativo” e o “eu experiencial”. Em outras palavras, não basta apenas experimentar: temos uma opinião enviesada que é mais importante se recordar do que experimentamos.

Por causa dessa nossa tendência de valorizarmos mais o eu recordativo, você pode alcançar um equilíbrio ao treinar sua mente para valorizar mais o eu experimental. Como é que isso pode ser feito? Por exemplo você pode focar mais tempo com coisas que te dão prazer no momento e menos tempo com coisas que te geram sofrimento no momento.

Uma das chaves para se obter mais felicidade é aprender a valorizar o momento presente, dando mais importância ao eu experiencial.

9. Cuidado com a ilusão de foco: o seu humor é fortemente determinado por aquilo em que você está pensando.

Avaliar o seu grau de satisfação com a sua própria vida e com as decisões que você toma é um processo difícil, que só pode ser feito pelo Sistema 2, pelo modo devagar de pensar.

O certo seria considerar todos os fatores da sua vida, dando a importância adequada a cada um desses valores. Só depois você chegaria a uma avaliação correta sobre o seu grau de satisfação.

Mas é isso que nós fazemos? Claro que não. Em vez disso, o nosso Sistema 1 substitui toda essa reflexão complexa sobre a satisfação com a vida por alguma pergunta mais fácil, tipo “como estou me sentindo agora?”. Em vez de considerar o todo, o sistema rápido de pensar foca só um ponto da vida e expande nosso sentimento em relação a esse ponto para todas as áreas da nossa vida.

Esse é o perigo da ilusão de foco. Um exemplo muito claro é o de um adolescente que está vivendo uma primeira paixão e não foi correspondido. Todo o foco de atenção daquela mente adolescente está na paixão não correspondida e ela começa a expandir essa insatisfação para todas as áreas da vida, começando a achar que tudo está mal.

Quando você tenta prever a sua felicidade no futuro, é provável que supervalorize o efeito que viria com aquela mudança em que você esteja focado. Você imagina que se perder X quilos vai ser muito mais feliz, que se conseguir aquela promoção no trabalho vai ser muito mais feliz, que se conseguir comprar uma casa vai ser muito mais feliz… Essa é a ilusão de foco em ação: o seu cérebro está valorizando demais aquilo em que você está focado.

A solução é a mesma que já mencionamos em outros pontos apresentados até aqui: em vez de pensar rápido e chegar a conclusões precipitadas, pare, respire, reflita. Coloque o Sistema 2 em ação. Pese todos os fatores que influenciam o seu bem-estar. Você vai perceber que, no longo prazo, nenhuma dessas mudanças vai ter um grande impacto sobre a sua felicidade de longo prazo.

Nosso cérebro possui duas formas de pensar: uma rápida e outra devagar, chamados de Sistema 1 e Sistema 2.

O Sistema 1 opera automática e rapidamente, com pouco ou nenhum esforço. Já o Sistema 2 aloca atenção para as atividades mentais que exigem mais esforço, incluindo cálculos complexos. As operações do Sistema 2 são muitas vezes associadas com a experiência subjetiva de atividade, escolha e concentração.

Um sistema não é superior ao outro, mas você pode melhorar e muito a sua inteligência na hora de tomar decisões se souber reconhecer quando deve usar o pensamento rápido e quando deve usar o pensamento devagar.

Para você que tem interesse em aumentar os seus níveis de inteligência dessa forma, eu te convido a conhecer o treinamento avançado Inteligência Arata Academy, acessando agora mesmo este link