O desapego como elemento necessário para construir novas identidades

Lembra do camarada do seu escritório ou da faculdade que vibra loucamente quando o time ganha? A parte mais pitoresca é quando ele faz questão de fazer graça na frente de torcedores do time rival no dia seguinte.

Você está assistindo o seu jogo, seu time perde… e naquele momento a única coisa que você consegue visualizar é a cara do traquinas fazendo onda no dia seguinte. O cara vai, rala de dar risada, contar vantagem, fazer as mesmas piadas repetidas que sempre faz, parece que está vivendo o melhor dia da vida dele.

E quando o time dele perde? O cara fica PUTO, dá murro na parede, se esconde dos amigos pois sabe que eles vão tirar a revanche, fazendo gracinha e sacaneando o time dele que perdeu.

Esse cidadão fica realmente PERTURBADO.

Por que isso acontece? É algo que vai além do amor ao próprio time – e é o mesmo fenômeno que acontece quando alguém raspa ou tromba em nosso carro no trânsito e ficamos furiosos a ponto de querer matar o sujeito.

É o fenômeno do apego e da identificação.

No caso do time de futebol, a identidade do torcedor está intimamente ligada ao time. Ao invés de dizer “Renato é médico cardiologista”, “Renato, filho do seu Anônio e da dona Cristina”, “Renato é carioca” ou algo equivalente ou que que vai além de qualquer rótulo… dizemos “Renato é flamenguista”.

E a associação da identidade ao time é tão forte que significa que quando o time vence, ELE é um vencedor. E quando perde, ele se sente um perdedor.

Esse mesmo fanatismo extremo acontece em diversas áreas, como por exemplo a religião. Ou uma convicção firme sobre um determinado candidato político.


Via Nanquim na Unha

Quando você ofende ou simplesmente critica ou apresenta um diferente ponto de vista, essas pessoas ficam transtornadas, reagindo como bichos raivosos, como maníacos dependentes de drogas. Dá para ver o sangue subindo nos olhos e eles defendem a crença, time, candidato… como quem defende a própria vida.

Paul Ekman (que inspirou o personagem Cal Lightman na série Lie to Me) e Wallace Friesen possuem pesquisas que revelam as emoções por trás de expressões faciais. É fácil identificar a expressão de raiva quando se ataca algum elemento que constitui a identidade de uma pessoa.

Um pouco diferente é o caso do carro, onde é o amor a um objeto e seu apego a ele que traz grande fúria quando acontece algum dano (mas nos casos extremos também há demonstração de fúria quando se critica um determinado modelo em favor de outro).

Lembro, uma vez, quando tinha oito anos, de eu ter comentado com o filho do vizinho que Fiat costumava quebrar muito (eu não entendia bulhufas de carro, só estava repetindo o que meu primo comentou certa vez). E o garoto ficou raivoso pois sua família tinha um Fiat! Na hora, ele retrucou dizendo que Ford era uma merda (especificamente se referindo ao carro que minha família tinha). Que maluco!!! Ele interpretou a conversa como se eu estivesse querendo o colocar pra baixo.

Mas maluco mesmo é quando, já na vida adulta, eu vejo as pessoas se comportando igualzinho, como pivetes de oito anos…

E como fazer para deixar de ligar a convicção com uma idéia, crença ou objeto deixar de nos afetar dessa forma? Através do desapego, tolerância e curiosidade.

Repare na diferença de emoções quando um grupo de pessoas discute política sobre diferentes candidatos para a presidência da república… e candidatos para deputado estadual.

No primeiro caso, existe muita convicção. Criticamos o eleitor de candidato presidencial diferente por ser BURRO ao não votar no nosso candidato. Mas numa eleição a deputado, como são dezenas de opções, e o que está em jogo tem geralmente um menor valor percebido, a discussão é mais civilizada.

É compreensível. A mudança no ambiente político e, por consequência, o impacto na vida de todos os brasileiros é muito mais afetada pela escolha do presidente da república do que de um único deputado. Com a percepção dessa diferença, nossos ânimos tendem a serem mais exaltados.

A pergunta é: você é um tipo de pessoa que se preocupa demais com os acontecimentos do mundo e como eles afetam sua vida… ou sua atenção é voltada para as transformações que você desenvolve em si próprio, e como esse crescimento faz com que você transforme o seu mundo?

Quanto mais nos consideramos independentes de fatores externos (a vitória do time, a eleição de um candidato, uma melhora na crise econômica, um chefe que não reconhece nosso trabalho, um dogma religioso), maior é a capacidade de desapego e aceitação de diferentes possibilidades.

Outro elemento que conduz a um desapego de identificação é ilustrado pelo meu amigo Gustavo Gitti, editor do Papo de Homem e do Não Dois, Não Um: ele diz que não se define um homem como “Renato, o fumante” pois em algum momento da vida ele não fumava. E a qualquer momento é livre para interromper o vício.

Interessante. Será que é possível, da mesma maneira, “Renato carioca” mudar-se para o Azerbaijão, onde ninguém tem idéia do que é o carioquismo, e tornar-se “Renato brasileiro” ou mesmo, após integrar-se na cultura local, constituindo família com várias gerações de descendentes nascidos ali… adquirir a cidadania?

No meu caso, eu me considero brasileiro, e não japonês. Porém, tenho primos nascidos no Brasil igual a mim… e que mais de década partiram para o Japão a trabalho e não pretendem retornar. Eles falam japonês o tempo todo com os filhos, tornaram-se japoneses.

Apego: Quando a identificação é imutável

E o Flamengo, como fica? Seria Renato destinado a ser flamenguista para sempre? Obviamente não.

A NÃO SER QUE Renato tenha criado em sua própria cabeça uma realidade, uma crença de que time é algo que nunca se troca. É esse o apego que queremos nos distanciar para poder fortalecer a capacidade de construir uma nova identidade.

Esse desapego é um componente essencial para aceitar um mundo dinâmico.
Eu estudei na Faculdade de Direito da USP, conhecida tradicionalmente como Arcadas (por causa das colunas em forma de arcos ao redor do pátio) ou São Francisco. Existem milhares de tradições deste ambiente, e eu achava engraçado o fato de meus veteranos resmungarem a respeito de minha geração de calouros, dizendo que “na época deles, era tudo melhor”, e quando nós estávamos no quinto e último ano, olhávamos com um desdém aos novos calouros, que em nossa ótica não entendiam qual era o verdadeiro espírito de um estudante das Arcadas.

Da mesma forma como um veterano limitado pelo apego olha para o novo e fica frustrado com a natural dinâmica do mundo, uma jovem mulher com muita vaidade que sempre recebe elogios e é o centro das atenções pode ter uma grande infelicidade conforme se aproxima da velhice – ela está identificada, apegada pela imagem que tinha de sua juventude que não existe mais.

Novamente, trago o exemplo do Gustavo Gitti com um texto sensacional chamado “Viver além de si mesmo“, que recomendo muito – nele, ele aponta como as descrições que fazemos de nós mesmos, como “oi, meu nome é Seiiti Arata, sou brasileiro, moro na Europa, sou fundador da Arata Academy que desenvolve produtos e treinamentos de desenvolvimento pessoal…” até que ponto eu realmente estou firmemente preso a essa descrição?

Faço questão de encerrar esse post com uma citação do texto do Gitti:

Talvez o estranho que acabamos de conhecer nos daria espaço para ser outra coisa, ou nós mesmos seríamos sua oportunidade de ser completamente novo. Talvez o tímido pudesse ser extrovertido pela primeira vez, o autoritário pudesse ceder e o canalha se apaixonar de modo derradeiro. Mas o tímido logo reafirma sua característica pelo corpo e às vezes pela própria fala (“Eu? Não, eu sou tímido”), o autoritário preocupa-se em aprender modos de controle que funcionem com a nova pessoa, e o canalha reitera seu fechamento à verdadeira canalhice da vida: amar.

Para ele, nossa liberdade está no processo de desidentificação, nesse desapego de uma imagem, crença ou rótulo.

No nosso caso, vamos escapar da Matrix da Classe Média nos desapegando de crenças anteriores que limitam a riqueza financeira e escolher as crenças e rótulos coerentes com o sucesso profissional. Faremos isso através das conferências e exercícios do livro A Classe Alta: Os truques de marketing e psicologia que aprisionam a classe média… e o que fazer para enriquecer